© Pepe Herrera e Rafael Frazão

É SÓ UM DIA - 2022

É SÓ UM DIA, performance duracional que deriva da peça Outro Lado é um Dia, de Carolina Campos e Márcia Lança, é uma maneira de evocar a transgressão do relato através da ficção especulativa posta em gesto. Em um dispositivo de escrita ao vivo, a performance dá a ver a construção de um fluxo de narrativas que se acomodam em uma superfície instável, no contágio entre a palavra e a ação. Na busca contínua por traduções não lineares do tempo e do espaço e por esse ponto frágil onde verdade e ficção se tocam e se confundem, estratégias recorrentes nos trabalhos das artistas, esta peça se propõe a imaginar mundos que coloquem em questão a fixação de ideias e narrativas fálicas e propõe o desafio de tomar as ruínas do discurso como lugar de potência. Durante 8 horas, Márcia e Carolina, ficcionalizam o presente a partir da escuta do lugar onde se encontram. Agarram fragmentos de mundos para os deslocar no tempo e resignificá-los fazendo-os explodir em diferentes direções e sentidos. A dramaturgia é construída a cada apresentação e ao final, o público leva consigo uma publicação feita ao vivo que contém um texto diferente a cada vez.

 

PERFORMANCE - Tem a duração de 8 horas e o público pode entrar e sair. As ações aparecem a partir do conteúdo do texto e, ao mesmo tempo, alteram a direção do mesmo. O texto altera o ambiente sonoro, que contamina a ação e o texto. A presença das performers vai se desorganizando e convertendo-se em ficção.

ESPAÇO - Há uma mesa com dois computadores no centro do espaço, em uma das paredes é projetado um pad onde o texto está sendo escrito em tempo real. Há objetos organizados ao redor da mesa, machado, tinta, madeira, maquiagem, plantas, tela de ocultação, cílios postiços... O lugar se desorienta à medida que a narrativa vai sendo criada. A luz é alterada pelas performers conforme as ações vão se desenrolando, acompanhando a criação de certos ambientes ficcionais que emergem dos gestos e da escrita. 

 

SOM - É feito em tempo real a partir de um repositório de músicas e texturas sonoras. O estado ficcional do som cria condições para que o texto apareça, assim como o texto, conduz o som. Às vezes um barulho de porta, funk brasileiro, uma textura metálica, silêncio, uma rádio local.

 

DRAMATURGIA - As narrativas e o ritmo da performance são consequência do gesto de compor em tempo real, com furos, erros, criando uma dramaturgia imprevisível. Ao longo das 8 horas de performance, a espetacularidade vai se diluindo e vai-se criando um lugar a ser habitado e não necessariamente visto de fora. O público imagina o que pode ter acontecido antes dele chegar, ou o que irá acontecer, pelos rastros dos objetos no espaço.

 

TEXTO - Seu ponto de partida é algo que uma das performers repara no espaço. A única regra é se relacionar com a última relação proposta pela outra. Não em um jogo de cadáver esquisito, mas a partir de uma operação proposta, um ambiente, um marco temporal, um detalhe, que pode explodir em outras direções. Escrever consiste em olhar o que está no texto anterior e imaginar possíveis virtuais para a história, às vezes ativando um, ou vários ao mesmo tempo. O texto acaba disparando em ficções sem começo nem fim, de histórias feitas das periferias das coisas. A coerência que a sustenta vem desse jogo de se colocar com a outra, ao invés de compor uma narrativa linear, com início, conflito e desfecho.

A cada hora imprimimos parte do texto e o público pode levar a publicação no ponto em que está. Ao final das 8 horas o público tem acesso à totalidade do texto que foi escrito naquele dia e nunca mais irá se repetir.

Criação e Performance - Carolina Campos & Márcia Lança
Repositório de Sons -  Cigarra
Apoio Técnico à publicação ao vivo - Andrei Bessa
Produção - VAGAR