pt | en
Márcia Lança, Aniol Busquets & Tiago Hespanha
O Desejo Ignorante

No palco os bailarinos esperam que algo lhes aconteça, esperam o momento em que aparece o desejo. Do desejo pode surgir a acção e por isso o gesto, o movimento, a palavra. Os bailarinos constroem frente ao espectador um diálogo permanente entre o que conhecem e o que desconhecem. Apresentam-se a cru, numa espécie de dança documentário. O vídeo aparece em O Desejo Ignorante à maneira dos grandes Ballets Russos e das Óperas Renascentistas onde os cenários pintados imitavam a realidade trazendo paisagens majestosas para cena. O vídeo propõe contexto, cenário, paisagem. Uma das questões que é fundamental na pesquisa para O Desejo Ignorante é a de unir o pensamento com a acção, fazê-los dialogar em simultâneo, não os separar dizendo que agora pensamos e agora dançamos.

Ficha artística

Direcção e Projecto | Márcia Lança
Criação | Márcia Lança, Aniol Busquets e Tiago Hespanha
Interpretação | Márcia Lança e Aniol Busquets
Vídeo e Som | Tiago Hespanha
Desenho de Luz | Alexandre Coelho
Assistente Vídeo | Rui Xavier
Conversas | Olga Mesa
Direcção de Produção | Sérgio Parreira
Produção e Difusão | VAGAR
Co-produção | DuplaCena/Festival Temps d’Images,
Maria Matos Teatro Municipal e Teatro Viriato
Residências Artísticas | Negócio/ZDB, KustenCentrum Buda, Teatro Viriato e Companhia Nacional de Bailado/Teatro Camões
Apoio à Residência | GDA Direitos dos Artistas
Apoio | Fundação Calouste Gulbenkian
Outros Apoios | De Kortrijkse Schouwburg, Fundação Centro Cultural de Belém, Museu Nacional do Teatro, Re.Al e Teatro Praga

Projeto Financiado pela Direção Geral das Artes
Agradecimentos
Agnès Quackels, Ami Daisi, António Pedro Lopes, António Rodrigues, Barbara Raes, Bram Coeman, Cláudia Varejão, Frederico Lobo, Fernando Filipe, Florent Delval, Gonçalo Antunes, Joana Cabral, Joana Pupo, João Calixto, José Carlos Alvarez, Kristof Jonckheere, Luc Depreitere, Luigi Manini, Luísa Homem, Mariana Sá Nogueira, Martin Mischel, Nicolas Duquerroy, Nuno Correia, Pedro Cardoso, Pedro Faria, Pierre Zimmer, Pierre Willems, Rudy Dewaegeneere, Sharon, Tiago Matos, Tin Tin.

In memory of Pedro Lança

Imprensa


"Sentado na escuridão da sala, o espectador começa a distinguir uma aura luminosa, projectada ao fundo do espaço. Os dois corpos no palco aparecem à medida que esta forma se dilata e incide sobre eles, iluminando-os. A aparição do espaço e, por conseguinte, do movimento, depende deste “cenário”. Não se trata apenas de um fundo visual, está inteiramente ligado ao volume do palco.

Como pode um plano ser um volume? É sem dúvida a ilusão do teatro, um artifício da máquina teatral, pensamos. Mas toda a superfície visível é-o em virtude de um fluxo de fotões, que cria uma terceira dimensão. É assim que da encenação nasce a realidade.

Toda a escrita de “O Desejo Ignorante” funciona sobre este paradoxo: o artifício dá forma à natureza e no entanto o artifício só existe através das leis da natureza. Por outras palavras, o que cria a coreografia aqui é a oscilação permanente entre o real e a escrita do real, que se chama arte.

Os gestos de Márcia Lança e Aniol Busquets são frequentemente estranhos, fora das convenções de uma relação entre duas pessoas num espaço. No entanto, no absurdo destes portés (quando ele a leva nos braços) e destes contactos, o real surge inegavelmente: o contrapeso dos corpos e os momentos em que se tocamexistem como as partículas de luz."




“Lanscape must be regarded first in terms of living rather than looking.”
John B. Jackson in “Land/Scape/Theater”
FUCHS, Elinon & CHAUDURI, Una; The University of Michigan Press, 2002
 
A  peça da Márcia conta a história de uma revelação. O que a Márcia, o Aniol e o Tiago me propõem são na verdade várias revelações. Da luz e dos corpos, sobretudo. Se estivesse a falar em inglês, podia jogar com o duplo sentido da palavra “Light”. Seria, então, da “luz” - o que a luz do vídeo me revela - e da “leveza” - o que a leveza dos corpos me revela. Daí podia relacionar o “desejo” com a leveza dos corpos e o “ignorante” com esta ideia de luz e de revelação, pois, na verdade, este movimento de revelação transforma-se naturalmente em movimento de indagação.
 
No início, o silêncio, a escuridão e a leveza quase inerte dos corpos lançam-me numa espécie de lugar transitório. Pouco a pouco percebo que a essa quietude do som, da luz e do movimento subjaz um jogo de peso e de contacto. Aqui acrescento à palavra “Light”, luz-leveza, a palavra continuidade, poderia dizer “presente contínuo”. Quando dou por mim, aderi totalmente. Vivo o desenrolar daquele lugar de transição, através do movimento contínuo dos corpos e da revelação da luz, como um processo inexorável e já contido na quietude. É como aderir ao devir contínuo da natureza, é como aderir naturalmente ao nascer de um novo dia. O meu corpo, mesmo que inerte, ou apoiado numa cadeira, não fica indiferente às mudanças que ocorrem numa espécie de linha subtil de continuidade, onde o fazer e o não fazer se sobrepõem.
 
Neste processo, fico com espaço para mim, para o meu próprio respirar na cadeira do teatro. Foco esta ideia de “quietude”, do quão importante é a quietude e quão ilusória a imobilidade. No movimento próprio da quietude, a respiração, há ainda um movimento mínimo dos meus órgãos, dentro do corpo, uma adaptação da gravidade ao movimento da respiração. Reparo então que a Márcia e o Aniol, respiram juntos, promovem essa qualidade do respirar juntos, e de sentir juntos o movimento dos órgãos, da gravidade, a reagir à respiração. E de repente a minha sensação salta de um nascer do dia para uma hora da sesta de verão.
 
Agora sinto a peça como uma “clareira”: será possível um lugar onde simplesmente respiremos juntos, num mundo que me impele constantemente a andar à frente dos meus próprios passos?
 
Apercebo-me, por detrás da revelação da luz, de uma imagem. Mais uma vez, só ilusoriamente esta imagem é estática, pois contém o movimento do tempo. Será que me apontam para o lugar da revelação fotográfica, como se o processo artístico fosse sempre o processo de uma revelação? E, nesse caso, quando finalmente tenho acesso à coisa em si, ela está velha, aparece diante dos meus olhos como uma coisa do passado. Assim, a minha percepção descola os corpos, em movimento contínuo, e o movimento do vídeo, daquela imagem, objecto, ali aparecido.
 
Mais uma vez a quietude dos corpos e agora esse objecto, deteriorado pelo tempo. O que me leva a valorizar ainda mais o processo em si, como um presente contínuo de revelação, do que a obra, uma espécie de memória, coisa do passado. No entanto, eu (na cadeira do teatro), a Márcia, o Aniol e o Tiago respiramos com a obra em si, em deterioração, como os nossos próprios corpos.
 
Penso neste tipo de “clareira”: o lugar da arte, do processo artístico, ou mesmo o teatro, como o lugar de uma utopia possível de respirarmos juntos, de nos apercebermos da nossa continuidade, enquanto sujeitos, e da nossa deterioração enquanto objetos. Que, no fundo, estamos neste lugar de transição em movimento ou a envelhecermos juntos. E, assim, o teatro contém a vida, tal como o Desejo Ignorante respira com o desenrolar dos dias. 
 
 
 “Landscape theater seeks to reanimate the life-art dialectic that realism had enclosed within it’s illusory four walls. In doing so, it seems to retrace the trajectory followed by the concept of landscape itself, from two-dimensional representation to three-dimensional environment, from a tract of land capable of being seen at a glance to an environment one can explore and inhabit.”

Una Chauduri in “Land/Scape/Theater”
                                                                     FUCHS, Elinon & CHAUDURI, Una; The University of Michigan Press, 2002

19 OCT' 13 . Porto
NEC Edifício AXA

11 NOV' 11 . Lisboa
Teatro Maria Matos - Festival Temps d'Image

VAGAR é uma associação cultural | © 2013 VAGAR
Design by Bloodymary & Braun
Developed by Fishartis